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07/06/2010 22:22:01 :: PIERRE AUGUSTO RAFAEL


A glória de Deus é ocultar uma coisa; a glória dos reis é esquadrinhá-la. (Provérbios; 25:2)


O olfato o único sentido que ainda lhe restava, se é que ainda restava sentido algum, aquele cheiro de hospital, de morte, que rondava e não findava, por quê? Por quê? Por quê senhor me abandonara...

Misto de dor, raiva, angústia, naquele momento, no auge, o paraíso perdido, sem motivos a mãe é informada de uma probabilidade tão remota quanto a loteria, a sorte tem seus caprichos por isso o fígado estava condenado, as passagens para o Expresso da Agonia estavam sendo distribuídas e o meu bilhete era para a segunda-classe de sofrimentos...

Interessante notar que a ansiedade em chegar ao fim é maior do que a sensação prazerosa da viagem em se tratando de um belo dia sem nuvens, enquanto que se o dia estiver chuvoso tempestuoso, ficamos hipnotizados, nos identificamos com a situação da natureza e sentimos cada barulho, saboreamos lentamente a angústia, a trepidação, os solavancos; o destino já não é tão importante, mas sim a permanência daquele fúnebre espetáculo, exaltando nossa inferioridade, fragilidade ante a poderosa Natureza e o misterioso Caos, facilmente entregamo-nos e apenas suplicamos para permanecermos vivos: avanço, recuo não importa.

Essa constatação, revelada, após o longo sofrimento experimentado, tão forte é a mácula do medo e do sofrimento, tão diáfana é a marca do prazer e da alegria, o dolorido tratamento: as festas e reuniões anteriores, já não consigo lembrar-me com tanta clareza, não distingo bem quando realizei minha graduação em Educação Física, minha formatura, as palavras do paraninfo:

— Com a certeza de estar presente, diante da atual elite: intelectual e física do país... Personal trainner, dieta, exercícios, passeios, terapias, remédios, equipamentos, todo o tipo de trivialidade cotidiana, o desejo como objeto do desejo, enfim uma viagem em um belo dia sem nuvens...

As nuvens começaram a juntar-se lentamente primeiro minha mãe, depois meu pai e finalmente eu, sim quando fui atingida começou a tempestade, tinha aumentado minha categoria no Expresso da Agonia, já não era uma viajante da segunda-classe, alcançava agora a primeira-classe com todos os requintes que a crueldade podia infundir.

O sonho aquele estranho sonho: um homem caminhando sobre o mar chega à praia e com os pés fumegando derrete algumas rochas por onde caminha, ele parece um religioso, de alta estatura, usando uma roupa que chega até os pés, com um manto preso na cintura; seu cabelo é curto, anda com a cabeça descoberta e traz algo nas mãos que parece um pequeno volume e um cajado.

Não sei explicar, não consigo a dor, aí, a dor, aí, aí, a dor é grande é intensa não vejo, não escuto, não ouço, não sinto, não cheiro, será que não vivo procuro, procuro não encontro, procuro entender os divinos desígnios, que tão sinuosos nos parecem, despencam em precipícios desconhecidos, minha mãe pouco-a-pouco perde seu fígado o órgão sintetizador do corpo, meu pai é demitido e deprime-se, por fim o sonho se repete, estando eu dormindo ou acordada e a dor é cada vez maior, não agüento e procuro um médico entre uma seção e outro do tratamento de minha mãe, após alguns exames o médico, pede outros mais específicos:

— Com a certeza de estar presente, diante da atual elite: intelectual e física do país... – essas palavras não abandonam uma esquina do meu pensamento cada vez mais obtuso, três semanas após o início de meus exames o diagnóstico.

Não sei como manter a pressão, qual será o melhor golpe aquele desferido lentamente proporcionando o máximo aproveitamento tanto da dor quanto da vida, ou o de misericórdia, piedade, perdão... Redenção? Rápido sem dor e sem vida?

— Srta. Michele devido a atual conjuntura familiar, a pressão, o estresse, provocaram, uma situação explosiva que resultou no aumento da pressão intracraniana, e por isso as dores de cabeça prolongada, bem como os sonhos e alucinações recorrentes que a senhorita queixou-se. – o Dr. Rafael olhava-me impassível, sim havia o distanciamento médico-paciente ainda mais com meu prognóstico...

— Recomendo-lhe a imediata internação e o tratamento dessa pressão para verificarmos a extensão de um possível aneurisma, a senhorita deverá informar-se na recepção a respeito da internação, boa tarde e até logo: - sim uma rápida despedida...

Todos morrerão isso não há a menor dúvida, porém é impressionante como queremos livrar-nos da proximidade e daqueles que carregam o potencial inevitável e imediato desse fato, o fim da existência de qualquer ser ou ente da natureza, desconhecido, intangível, inatingível....

Após a internação meu primeiro presente; longos cachos dourados outrora tão cuidadosamente cultivados, agora entregues inertes ali em uma sacola de plástico barulhenta, fria, como o dia lá fora, vinte e três de junho, nunca mais olhei um espelho...

Por quê? Por quê? Por quê senhor abandonaste-me o que fiz o que fizemos, para merecer tal tempestade, as procelas gritam em furor, morre mamãe, carpideiras choram, morre papai, abandonada sinto o ódio, a apatia, o sonho não tenho mais, meu sonho onde estará?

Quanto tempo eu já não leio, sem passatempo, e o tempo passa a viajem cada segundo mais lenta, não posso fixar meus olhos em nada, a dor, a dor é grande, intensa, voluptuosa:

— Com a certeza de estar presente, diante da atual elite: intelectual e física do país... – essas palavras malditas, são minha maldição é isso agora sei o porquê de meu castigo, sim acreditei ser maior que tudo, esqueci de minha inferioridade, fragilidade, ante a poderosa Natureza e o misterioso Caos, a dor não cessa, começo enlouquecer, não louca já estou, começo a racionalizar cada vez mais, o que acontece não há mais controle preciso, não necessito, a fome é grande... Ler, ler, ler preciso ler procuro pelo quarto, não consigo descobrir nada, de repente, um pequeno volume parece, não, não é possível será? Vejo, não creio! O sonho, novamente o sonho; aquele estranho sonho: um homem caminhando sobre o mar chega à praia e com os pés fumegando derrete algumas rochas por onde caminha, ele parece um religioso, de alta estatura, usando uma roupa que chega até os pés, com um manto preso na cintura; seu cabelo é curto, anda com a cabeça descoberta e traz algo nas mãos que parece um pequeno volume e um cajado.

O pequeno volume deve ter as respostas que procuro nada mais importa o mar, o homem, a dor, o sonho, apenas o livro, pego-o está em minhas mãos não sei se conseguirei abrir a pressão é muito grande, folhei-o e na afã de deslindar seus mistérios encontro uma palavra um duro golpe:

MORTE

 substantivo feminino
1 fim da vida, interrupção definitiva da vida humana, animal ou vegetal
1.1 Rubrica: medicina.
cessação completa e definitiva de vida, esp. a humana
1.2 Rubrica: religião.
separação entre a alma e o corpo, que marca a passagem a outro estágio espiritual ou à vida eterna
2 Rubrica: iconografia.
representação iconográfica da morte [A maior parte destas representações mostra a imagem de um esqueleto humano armado de foice.]
Obs.: inicial maiúsc.
3 ato ou efeito de matar
4 fim da existência de qualquer ser ou ente da natureza
4.1 cessação da luminosidade emitida por um corpo do espaço cósmico
Ex.: m. das estrelas
5 fim, término de qualquer coisa, ger. subjetiva, criada consciente ou inconscientemente pelo homem
Ex.:
6 o fim, o desaparecimento, freq. gradual, de qualquer coisa que se tenha desenvolvido por algum tempo
Ex.:
7 Derivação: sentido figurado.
intenso sofrimento, grande dor e angústia
Ex.: foi uma m. viajar sem seus filhos



O barulho do vidro estilhaçando, deixo de ouvir, o duro impacto do corpo contra o chão frio, o gosto amargo do fel da impotência some da minha boca, a brisa noturna ó cálida sensação já não lhe conheço mais, olho para o céu como um último gesto um penúltimo sentido, as estrelas formam um desenho parecido com o de uma estrada larga no início e estreita em seu término:

4.1 cessação da luminosidade emitida por um corpo do espaço cósmico.

O retorno dessa imagem dessa acepção do dicionário que joguei pela janela, quebrando o vidro, permitindo a entrada da brisa e a luz das estrelas justamente aquela era minha última visão.

O olfato o único sentido que ainda lhe restava, se é que ainda restava sentido algum, aquele cheiro de hospital, de morte, que rondava e não findava, por quê? Por quê? Por quê senhor me abandonara...
 
07/06/2010 15:15:17 :: GORETTI ALBUQUERQUE


Quando em ti o inverno chegar,
Então corres aos lírios do campo;
Beijão às mãos da criança a passar,
E oferta a bondade em forma de amar.

E se a chuva em tua noite cair,
Sai às ruas olhando ao teu lado;
Se encontrardes um irmão a pedir,
Parte o pão e a coberta calado.

Quanto tempo tem um ancião,
De calçadas, de fome e de frio?
Não perguntes estendes tua mão;
Faz agora e evites o “teu calafrio.”

Na barriga daquela senhora,
O embrião pensa: vou    perecer;
Pois pressente que o mundo lá fora,
Tem traçado seu negro viver.

Vejo a lua opaca escondida,
Hoje o sol não brilhou nas colinas;
Sente as dores incompreendidas,
De uma lágrima escondida por trás das cortinas.

Era o tempo e o vento a soprar,
E nas guerras Nações combatiam;
Sem motivos deixando ao relento,
Pobres jovens, sem causas morriam.

Esse texto não é ficção, nem imaginação.
É a verdade em um grito de Indignação!

Goretti Albuquerque
 
06/06/2010 14:43:53 :: ALBÉRICO SILVA DE CARVALHO
Poema


O poema que eu não escrevi
Está escrito na nossa consciência,
Instiga o eco aflitivo das senzalas e do pelourinho
Fala do amor e dos carinhos que eu nunca conheci,
Dos amores que eu não vivi e, dos prantos carpidos
Fala de abandono, da sede, do frio dos desenganos
Da fome, de solidão por se sentir e, estar só,
Por não ter tido a oportunidade do peito materno.

O poema que eu não escrevi
É escrito todos os dias na rua, nas sinaleiras,
São declamadas, nas ocasiões em que nos faltam as palavras,
Fala de ressentimentos, dos temores que inibem o homem.
Fala das dores que ficam impregnadas, marcadas na alma,
Que são cinzeladas pela indiferença e descaso do ser humano!
Fala das longas noites sem agasalho embaixo das marquises
Fala da troca de sexo pelo pão que mata a fome que estertora.

A poesia que eu não escrevi está grudada no peito
Nos reconditos da alma à espera de dias felizes...
É voz de criança a reprovar as rotas clandestinas do aborto
Fala dos entes escorraçados à mercê da caridade alheia
É prelúdio de amor que sublima a criatura.
Cada verso que não escrevi é cicatriz ainda viva e doída
Guardados na memória, chama acessa, creptar amargurado
A poesia que eu não escrevi é um plágio da própria vida
É canto de alerta pedindo passagem exorando socorro.

Albérico Silva
  
 
06/06/2010 14:40:42 :: ALBÉRICO SILVA DE CARVALHO
PÃO

O que me lava a alma
E me sacia a boca.
É pão dividido por várias mãos.
E comido por várias bocas,
Pegadas seguindo mesmos rastros!
Olhos nutridos por mesma hóstia
Cálice solidário comendo do mesmo pão.
O que me mitiga a sede,
São argamassas moldando mesmo peso.
São bocas bebendo no mesmo poço,
Gados pastando no mesmo pasto
Comendo a mesma ração.
Almas aquinhoando mesma miragem.
O que me sacia a boca,
Não é o que enche o estômago
São as mesmas fomes iguais
Satirizando bocas diferentes,
Sustento sonhos idênticos.

Albérico Silva
 
05/06/2010 00:04:07 :: GORETTI ALBUQUERQUE


O que fizeram com nossas matas
Bela Floresta quem te devasta?
Por que te calas, velha Cascata?
Rouxinol triste parou seu canto
As borboletas voam em pranto
E o homem insano: Tirou seu manto.

Abraçada a ti faço um juramento
Junto ao teu coração chorar o seu lamento
Vejo teus galhos copados como um monumento
Por que te sugam te destroem assim dessa maneira?
Choro pelo canarinho, o beija-flor e também por ti.
Floresta escassa tão desfigurada sou o teu sentir.

Minh!alma entristecida se enluta na dor
Rios, afluentes, fontes e animais
Sou o teu grito nas horas fatais
Teu orvalhar expressa o teu clamor
Vil animal o homem e suas façanhas
Vai ter comigo e com minhas entranhas.

Quando criança cobria-me as tranças
Braços abertos a me guardar nas sombras
Meus Piqueniques, eu sentava em teu chão
A mesa posta os pássaros em canção
Saudade e sonhos minha árvore querida
Infância linda seiva de tua vida.

Quando chegarem os falsos lenhadores
Pranteia o orvalho demonstra tuas dores
Não percas nunca o manto de tuas cores
Luta e reage contra os opressores
Confiam em mim e em teus defensores
Amando iremos te render louvores.

Goretti Albuquerue.
 
03/06/2010 18:51:35 :: ELMIRA NUNES


RESISTÊNCIA
Nos ventos de outono,
o frio e o movimento
evocam a vida.
Frente a frente,
o outro espelha meu eu.
Eu falso, eu fraco.
Resisto em mim,
em tudo, em nada.
O vazio insiste
em preencher a vida.
Fantasma esquecido,
força traída,
moinho de vento.
 
03/06/2010 08:46:02 :: Gazela


TRISTEZA..............


É na saudade de mim que me procuro,
nas colinas do tempo no silencio
agora companheiro da minha imagem

Entre prados verdes,de mil cheiros
no canto dos pássaros no som da
água que desliza da cascata.

Na melodia da cigarra.

Do ver-dor os dias alimenta, de melancolia
como se nada mais a vida fosse!
É na flor aberta,no pólen do pensamento que
renasce uma lágrima de mim ausente!

Um passado ainda recente no fervilhar,
da ilusão procuro curar as chagas da mente
juntar estilhaços duma vida crucificada
pelo tempo.

Mais forte que eu, aflui ao coração o fel
do esquecimento, entre a vontade distante
duma felicidade ausente em me reencontrar!!

Gazela............
 
03/06/2010 08:43:21 :: Gazela



Meditação :    Fénix

Não era bem isso,
não queria perguntar nem queria sentir,
bloqueei a mente.

Tento esconder
os esqueletos no armário
pensando que não passa de um sonho mau.

Mas,
de novo aquela voz longínqua
teima em perturbar toda a vontade
que outrora sentia para me ajudar.

Na revolta da mentira
fica uma verdade calada
em cada sombra da madrugada.

Em mim
uma memória cintilante
deixa antever um passado
próximo em que morri para renascer.

Gazela........
 
03/06/2010 08:38:18 :: Gazela


Tristeza :    Meu corpo é um poema de morte



Meu corpo
é um poema de morte.

Escrevo-me
em palavras mal fadadas,
noites de horas paradas.

Versa-me
na pele agonia sem fim,
dor que deixaste em mim.

Sou zombie
neste mundo de cheiros nauseabundos,
suor da morte para mim bálsamo de sorte.


Gazela................
 
03/06/2010 01:46:05 :: Cleviton


Meu Deus Era verdade!...
porque foi que eu não acreditei?...
Meu Deus?...
ai!...
Porquê?...
porque foi que eu não acreditei?...

Vai ser corre corre
terror...desespero...
gente gritando...
gente se matando...
gente matando um aos outros...
gente se ajoelhando...
gente desmaiando...
pressão alta...
pressão baixa...
gente implorando...
se lastimando...
correndo pelas ruas...
feito loucos...
as manchetes...os jornais...
não falarão outras notícias...
vai ser um caos aqui na terra...
após o toque da trombeta!...
aviões caindo em desastres...
carros batendos nas estradas...
explosões em muitas fábricas...
muito fogo alastrando sobre a terra
e sobre o mar...
vai ser acidentes por segundos...
por ter sido arrebatados os verdadeiros
cristãos daqui da terra...
e os que eram pilotos de aviões...
os aviões ficaram desgovernados...
operadores de máquinas...
motoristas de carros...
maquinistas...capitães...
e assim sucessivamente...
foram eles arrebatados...
deixando tudo desgovernados...
vai ser postes caindo...
fios de altas eletricidades...
causando atrocidades...
pelas ruas das cidades...
muitos prédios incendiando...
muita gente morrendo queimadas...
muita gente morrendo atropeladas...
salve-se quem poder...
e nesse salve-se...
vai ser uns matando aos outros...
muitos se suicidando...
o negócio vai ser sério...
e não dar para imaginar...no total...
e nem escrever...do que na verdade vai
acontecer...são muitas coisas...
e fica então esse resumo...
para se ter um pouco de idéia...
que possamos estar preparados...
e não fazer parte desse time...
do time...dos que vão ficar...
dos que vão chorar!...
olhando para o céu...
se lastimando e dizendo:
-Era verdade...Meu Deus Era verdade!...
porque foi que eu não acreditei?...
Meu Deus?...
ai!...
Porquê?...
porque foi que eu não acreditei?...
















                                                                    
 

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