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Cláudio Joaquim


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05/01/2009 20:52:57 :: MARIA CARVALHOSA


Fragmento


(fotografia de António Rodrigues)

O voo planado da gaivota;
o azul indescritível
das águas profundas
que separam a costa da ilha-rosa,
logo ali,
a duas braçadas e meia de lonjura;
as mãos que avidamente se procuram
para agarrar
um momento inesquecível.

Riem de si próprios
e as gargalhadas ecoam como os gritos dos corvos e das gaivotas.

No abraço em que se enlaçam
os beijos molhados têm o sabor salgado
das lágrimas que algures,
no percurso dos rostos,
se misturam.

Em silêncio, sem palavras, eles sabem.

Sempre souberam da impossibilidade de guardar
a memória etérea de um instante feliz num relicário;
da incapacidade de qualquer alquimia materializar,
para esconder na caixa dos pequenos-grandes tesouros,
um fragmento de eternidade:
único e irrepetível.


Posted by maria carvalhosa

Publicado no site: O Melhor da Web em 05/01/2009
Código do Texto: 11057
 
05/01/2009 20:49:57 :: MARIA CARVALHOSA


Dia de Festa


Hoje é dia de festa.
Os pássaros afinam os trinados;
as papoilas ondulam, ufanas, nos campos;
as ondas desfazem-se, em puro delírio, nas rochas que se deixam banhar com idêntico prazer;
as pessoas sorriem e cumprimentam-se, quando se cruzam, como se não se vissem há muito.

Estou cansada, desgastada, exausta.
Quem me dera poder dormir todo o dia e esquecer... que hoje é dia de festa!

Apesar de tudo, lá vou!
Invento um brilho nos olhos;
colo uma imitação de sorriso nos lábios;
canto, danço, misturo-me com a multidão...
e finjo que estou feliz.

Afinal... hoje é dia de festa!

Fotografia e texto de maria carvalhosa

Publicado no site: O Melhor da Web em 05/01/2009
Código do Texto: 11051
 
05/01/2009 17:26:42 :: MARIA CARVALHOSA


" ...livre... " fotografia de Sandra - Olhar Atento



livre

como a pomba que esvoaça
como o ribeiro que corre
como o vento que assobia

livre

como uma nuvem que passa
como um deus que nunca morre
como uma mente vazia

livre

não ter venda nem mordaça
subir ao alto da torre
ver nascer o sol e o dia



Posted by maria carvalhosa
 
05/01/2009 16:43:00 :: MARIA CARVALHOSA


A maldição da coruja

Havia um nome todas as noites.
Ao entardecer, quando recolhia a casa, Mateus rezava para que, mais uma vez, não fosse o seu.
Sabia que a sorte não podia durar para sempre. A população da aldeia era escassa e já não restavam muitos nomes. Chegou a pensar em fugir para o outro lado das montanhas, onde a voz da coruja não se fizesse ouvir. Ainda assim não era certo que escapasse à morte quando a ave agoirenta gritasse "Mateus".
Havia rumores de outros que tinham fugido e tinham acabado por morrer na mais completa solidão, longe daqueles que amavam e sem uma mão amiga para agarrar no momento da partida. Ninguém sabia como esses relatos ali chegavam. Mas... e se fossem autênticos?
No desespero de uma saída alternativa, à hora de dormir, beijava os filhos, acariciava-lhes os cabelos e sorria-lhes, com ternura. Depois, ia deitar-se ao lado da mulher, passava-lhe o braço pela cintura e pegava-lhe na mão, com força, como se pela última vez. Tentava adormecer e, no mais profundo pânico, esperava.

(inspirado no romance "I heard the owl call my name", de Margaret Craven)

Posted by maria carvalhosa
 
05/01/2009 15:38:08 :: MARIA CARVALHOSA
Cabelos desalinhados, ao vento...
sorrisos tímidos, breves...
olhos molhados, por dentro.

Nos interstícios do que dizes,
adivinho o que fica por dizer.

Posted by maria carvalhosa
 
05/01/2009 13:26:38 :: ALEXANDRE BRUSSOLO
"O homem se diz civilizado,
Sábio... protetor,
Mas leva para a floresta o machado,
Transformando-a em palco de horror!
Que civilização!
Que tristeza...
Nunca aprende a preservar...
Da Natureza!

(Autor Desconhecido)
 
05/01/2009 12:46:32 :: JHOMARA ALVES


LONGO CAMINHO
Um longo caminho tenho
Por isso Senhor hoje venho
A tua presença pedir
Pois, só eu não quero sentir
Leva-me em tua segurança
Trazendo ao meu caminho bonança
Guarda-me com o teu amor infinito
Pois, sem ti não tenho sentido
O caminho não quero errar
Mesmo estreito, nele quero andar
Tuas mãos não quero deixar
E a tua palavra no meu coração desejo guardar
Ainda que o sol não apareça
E ninguém ao meu lado esteja
Quero ter a plena certeza
Que a formosura da tua beleza
Acompanha-me em meu caminhar

 
05/01/2009 01:12:48 :: MARIA CARVALHOSA


Conseguiu limitar o extenso volume do seu corpo ao espaço exactamente deixado pelas portas que se fechavam, naquela fracção de segundo. Entrou. O suor escorria-lhe da testa e as mãos ainda lhe tremiam. Verificou, com agrado, que o metro ía quase vazio. Sentou-se no primeiro banco. Respirou fundo, recostou a cabeça e fechou os olhos. "Agora só saio no fim da linha, seja lá onde for", pensou e sorriu, de si para consigo, sempre de olhos cerrados. "Escapei de boa, sim. Doutra como esta não me volto a safar". Emitiu um som semelhante a uma risada gutural e aninhou-se no banco, como quem se prepara para dormir. Meteu a mão no bolso do casaco e sentiu o pesado cordão de ouro, com uma bonita cruz encrustada de pedras, sem dúvida preciosas. Devia valer para cima de um dinheirão. E afinal tinha sido tão fácil: um simples empurrão, um "desculpe" balbuciado enquanto desapertava o fecho facílimo de abrir, e a corrida final para as portas que, por muito pouco, não se recusaram a deixá-lo entrar.

Para trás ficava o cais, despido de gente naquela manhã de domingo. Os bancos de madeira estranhamente desocupados. Apenas uma mulher alta, elegante, vestida de branco, com o cabelo castanho claro apanhado em madeixas, com um ar nitidamente perdido, torcia um lenço de seda azul entre as mãos. Cerrava os maxilares para não gritar e sustinha, com um quase imperceptível tremor de queixo, as lágrimas que, teimosamente, queriam abandonar os seus olhos verde-claros e precipitar-se pelo rosto, infiltrar-se pela blusa, dois botões aberta, e ocupar o lugar recentemente adquirido, e logo abandonado, pelo fio. No peito, arfando suavemente, estavam contidos os soluços, ansiosos por uma oportunidade para se soltarem e soarem bem alto, no interminável corredor dos carris do comboio. Se tal sucedesse, iriam por certo assemelhar-se aos uivos de um animal aprisionado numa gruta sem fundo. Imobilizada, não sabia o que fazer. Alguém a terá encontrado e levado dali, algum tempo depois, sem perceber o que tanto poderia ter abalado aquela mulher.

Na morgue do hospital tiravam mais um cadáver do frigorífico para ser autopsiado. Quando o médico legista o destapou não pôde deixar de reparar na beleza da jovem cujo corpo exibia as sevícias de um homicídio violento. Ainda antes de se lançar ao trabalho, a sua atenção foi captada por um pormenor: no peito bronzeado da rapariga era visível a marca de um colar, ou de um fio grosso, e bem destacado, a branco, entre os seios, o desenho de uma cruz.

(*) Fotografia de António Rodrigues

Posted by maria carvalhosa
 
05/01/2009 00:53:33 :: MARIA CARVALHOSA


TERNURA

I


Ternura nos olhos, no sorriso, nos gestos.
Ternura na voz.
Ternura nas palavras escritas.
Ternura no afagar das teclas de um piano.
Ternura ao friccionar o arco nas cordas de um violino.
Ternura ao colorir de pinceladas uma tela.
Ternura ao executar um elegante passo de bailado.
Ternura ao embalar o filho.
Ternura ao poisar os lábios na fronte fria do amor moribundo.

Mãos ternas que acariciam.
Boca de ternos beijos.


II


Sonhei com um cemitério bizarro.
As lápides eram negras e, por contraste, pairava sobre o espaço uma difusa neblina
que se aliava à brancura da neve que tudo cobria.
Havia uma pedra tumular onde mal se distinguia qualquer inscrição.
Não havia nome, datas, fotografia.
Apenas se podia ler o epitáfio:
“Em memória eterna de uma mulher terna”.

Posted by maria carvalhosa
 
05/01/2009 00:38:37 :: MARIA CARVALHOSA



(fotografia de António Rodrigues)

CALHAUS ROLADOS PELO MAR

Pedras amontoadas no areal. Atiradas pelo mar com desprezo. Para ali deixadas até que a próxima maré-viva as restitua ao chão de água. Enquanto isso, para ali ficam, abandonadas à mercê da chuva e do sol, à curiosidade de quem passa e pega numa, para levar para casa. Porque a achou bonita. Porque vai ser a recordação daquele dia que, por uma qualquer razão, que não importa, não foi como o anterior nem será como o seguinte, para aquela pessoa, que não interessa quem possa ser...
...Tal como a pedra: uma, apenas uma, entre tantas.

Posted by maria carvalhosa
 

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